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quinta-feira, 30 de abril de 2026

CAMINHAR NA CHUVA


Deixem-me caminhar na chuva,

não por acaso — mas por necessidade.

Que a água fria me invada os ossos

e dissolva, em silêncio, o que em mim grita.

Molhando o corpo, escondo a dor,

mas é na alma que a tempestade acontece.

Cada gota que cai

é um pranto que não ouso revelar.

Se caminho sob a chuva, não é em vão —

é fuga, é abrigo, é quase um pedido de fim.

Não quero olhos sobre mim,

não quero que contem minhas lágrimas.

E nessa longa travessia encharcada,

deixo que a chuva me desfaça aos poucos,

como quem aceita desaparecer

sem fazer ruído.

Mesmo que o mundo arda lá fora,

há em mim um frio que não cessa.

Então deixem —

deixem que eu me perca na chuva,

até que reste apenas o silêncio

onde antes existia esse ser.


Leonardo de Souza Dutra